A história da Dama do Jazz de Porto Alegre

Texto gentilmente cedido por Conça Dornelles:

O Jazz está em alta no RS, coisa boa! Entre 8 e 9 de junho a Dama do Jazz de Porto Alegre abrirá as portas do porão do Jazz para o Projeto Vizinhança.

Deixo aqui minha contribuição: A história da Dama do Jazz de Porto Alegre e seu clube,
o Take Five, escrita e publicada num dos capítulos de minha tese de doutorado, desfrutem!

No início dos anos 80 surgiu em Porto Alegre o Clube de Jazz Take Five, fundado por Ivone Pacheco em sua residência. A atmosfera no clube era de puro improviso e liberdade de expressão artística, lá Dama do Jazz Ivone Pacheco e os músicos se encontravam para celebrar a música.

Ivone Pacheco se criou em um Hotel, no hotel Metrópole de seu pai, localizado na rua Andrade Neves de Porto Alegre, aprendeu a tocar piano aos quatro anos de idade ensaiando músicas de ouvido no piano do hotel, mas teve sua primeira professora aos oito anos de idade, aos poucos passou a fazer pequenos espetáculos de duas horas no hotel tocando valsinhas e boleros a pedido dos hóspedes.

Quando Ivone recorda de suas influências, ainda na infância, lembra com afeto da lavadeira Amélia e seu namorado que tocava sopro, ambos negros. Na época, negros e brancos frequentavam locais distintos e ouviam músicas distintas. Ivone comenta que Amélia cantarolava as canções dos clubes de negros onde seu namorado tocava, como a Sociedade Espanhola que ficava ao lado do hotel, onde ocorriam os bailes só para negros. Ivone adormecia encantada ao embalo daquela música. Porém era um local vetado à ela. Amélia também lhe contava histórias de odaliscas e fadas, e assim seu imaginário foi se construindo, sua estruturação musical e artística recebera as primeiras influências, ainda sem bem ter consciência delas. Mais tarde outras influências marcaram sua vida, como os filmes americanos. Ela costumava ir às matinês, até três sessões seguidas, para tirar as músicas como Rhapsody in Blue e Porgy and Bess de George Gershwin. Os musicais da Broadway também eram seus favoritos, sempre que podia assistia a um deles. Escutar os pianistas Dave Brubec, Oscar Petersen, Erroll Garner também foram fortes na formação da jazzista.

Ivone nunca gostou de partitura, no entanto tinha que estudar música erudita, mas de ouvido tirava as música populares inspiradas no som que vinha do clube ao lado do Hotel. Com vinte e seis anos Ivone casou teve filhos e levou durante muitos anos a vida de uma típica dona de casa afastando-se da música, até que ficou doente e percebeu que era por falta de tocar e assim voltou a estudar piano, fazendo o curso de educação musical. Depois fez concurso e tornou-se professora de música do estado.

No verão de 1982, na colônia de férias da UFRGS, Ivone Pacheco ainda desconhecida no meio artístico entrou na sala do piano e começou a tocar, o tecladista Ungaretti, então estudante de música desta universidade a viu tocar e depois foi conversar com ela. Nessa conversa ele disse – você é uma jazzista, onde você toca? – Na minha casa, respondeu Ivone. Desde então passaram a se encontrar na casa dela em Porto Alegre para tocar juntos aos sábados, e cada dia ia mais um músico e todos se encantavam com ela, até que o publicitário Sérgio Jaegger, a ouviu e comentou que ela tocava escondida e que tinha que mostrar aquilo para o público.

Desses encontros, nasceu o desejo de fundar o clube de Jazz. Então oito “magros”, como ela se referia aos jovens músicos, retiraram o piano que se encontrava na sala e o levaram para o porão, nasceu então o Take Five.

A partir desse momento Ivone Pacheco rompeu tabus, deixou de lecionar, de ser apenas uma esposa e mãe, junto com os músicos que frequentavam sua casa quebrou as paredes do porão de seu sobrado, pintou as paredes de preto, colocaram spots coloridos, posters de cantores e cantoras famosos do Jazz como o pianista Dave Brubeck autor do hino do clube – a música Take Five – LPs antigos, móveis e objetos antigos que pertenceram a seus antepassados formando assim, uma decoração peculiar. Tudo foi pensado para manter o clima típico de um ambiente de jazz, como os night clubs, que marcaram época nos Estados Unidos da América.

O nome do clube é uma homenagem à música de Brubeck composta em compasso 5/4, uma das preferidas por todos os jazzistas e, é também, uma referência a expressão usada pelos coordenadores dos grupos americanos de Jazz que significa fazer uma pausa de cinco minutos, um pequeno intervalo entre um grupo e outro e aí se grita: take five!

Em pouco tempo Ivone tornou-se a musa o Jazz de Porto Alegre, reverenciada até hoje por músicos que a consideram não só pelo seu talento, também por sua capacidade de celebrar a vida, de passar otimismo para as pessoas, de incentivar os novos talentos, e pelo apoio que dá aos músicos e artistas desconhecidos. Ela é para muitos uma madrinha, para outros um guru e para todos – a musa.

O Take Five é um ponto de encontro daqueles que gostam de jazz, funciona como um laboratório de música, reunindo músicos de diversas gerações. Não é um bar ou um espaço comercial, é um espaço cultural, quase oculto, secreto, é para quem sabe, para o amigo do amigo. Ocorre desde sua fundação, normalmente uma vez por mês, Ivone decide quando e aí pega o telefone e chama os músicos pra vir tocar, eles avisam os amigos e a festa está feita. Também pode acontecer de chegar em Porto Alegre algum músico ou banda conhecida, como a Traditional Jazz band, Paulo Moura e se decide fazer um clube no dia, ou melhor na noite, totalmente de improviso. Entre os músicos gaúchos que já tocaram lá, Ivone destaca Adão Pinheiro Machado, Plauto Cruz, Paulo Lata Velha, Borghetinho, Elton Saldanha.

Ivone não gosta que o clube fique lotado, prefere a qualidade à quantidade, gosta quando todos os músicos presentes podem tocar e curtir a música. Ela costuma dizer que o clube é como o Jazz, imprevisível, ali ocorre encontro entre músicos profissionais e amadores, e volta e meia alguém declama um poema. É um lugar pra ouvir música e Ivone prima pela atmosfera do local, coloca incenso, acende velas, inclusive as quatro em seu próprio piano. Por isso é chamado de templo, o templo do Jazz. Ao largo da noite se formam duos, trios, tudo ao acaso e vão tocando enquanto tem vontade, fôlego e é claro se estão agradando. Não há regras, a liberdade é a chave para o prazer, os músicos profissionais que tocam na noite costumam comparecer ao clube em altas horas e a festa no porão do jazz continua até às cinco horas da manhã.

Dali pro mundo foi um pulinho, Ivone tocou em primeiro lugar no bar Lugar Comum de Porto Alegre, depois em Brasília, onde ganhou seu primeiro cachê, tocando no Gate’s Pub, e depois disso virou música profissional em Porto Alegre tocando semanalmente no Café Concerto, do Blue Jazz e no bar Absintho e daí tomou a estrada, foi para Novo Hamburgo, onde tocou inúmeras vezes, Pelotas, Canela, Porto Seguro, Alto paraíso de Goiás, Rio de Janeiro, Bahia, Paris, New Orleans, New York, nesses dois últimos locais, Ivone confessa ter sentido verdadeiramente o Jazz. Conta que tocar Concertina, chamada gaita pelos gaúchos, na Sétima Avenida, em New York fora uma das experiências mais marcantes de sua vida, disse que ganhou muitos dólares em seu chapéu, embora não tocasse pelo dinheiro, o que a encantou fora a mentalidade das pessoas, abertas pra música para aqueles que tocam na rua, em praças ou mesmo no trem. Nas praças as pessoas interagiam com ela e pediam que tocasse os grandes sucessos de filmes e ela tocava. Andou ainda em suas pesquisas musicais em lugares como Grécia, Itália, Buenos Aires, Chile.

Outros locais que Ivone gostava de tocar é no foyer Teatro São Pedro, no projeto Blue & Jazz, onde figuras como Geraldo Flach, Flora Almeida, Claude Bolling e a Archi Jazz Band se apresentaram e, no happy hour do Café Concerto Majestic, para ela os encontros de fim de tarde com vista para o pôr-do-sol no lago Guaíba era encantador, em 1994 ela inaugurou o piano alemão Anne Frank adquirido pelo café. Ivone costuma dizer que o Gauíba é o Mississipi e Porto Alegre sua New Orleans. Inaugurar piano parece combinar com a musa, já que em 1989, foi escolhida para ser a primeira a tocar no piano Gotrian Th. Steinweg Nachb, do início do século, vindo da Alemanha em 1908, comprado pelo proprietário do bar Koloss 44 de São Leopoldo, e restaurado por Jarbas Amaral.

Também frequentava o Blue & Jazz Bar, na Aureliano de Figueiredo Pinto, que foi reaberto no início da década de noventa com um programa de variedades para as tardes de domingo com o comando da própria Ivone. Ela era a anfitriã da festa, fazia debates culturais, apresentava quadros fixos, cantava e tocava, tudo era acompanhado de um delicioso café da tarde com docinhos e salgadinhos.

Sempre aberta ao mundo das artes, em 1992, Ivone dá espaço ao artista plástico Eduardo Simch para expor 18 mestres do blues e do jazz registrados em gravuras de metal em seu templo do jazz.

Em 1993 Ivone foi convidada para prestigiar o projeto Sarau no solar, iniciativa da diretoria de atividades culturais da Assembléia Legislativa, bem como no Salão Mourisco da Biblioteca Pública de Porto Alegre.
Nem tudo são flores na vida de Ivone, em 1985 sofreu um acidente de carro no qual perdeu sua única irmã e se machucou muito passando por conta disso uma temporada no hospital, onde teve a certeza de ser muito amada pelos músicos jovens que a iam visitar e tocar pra ela, estimulando assim sua recuperação. Ali Ivone disse ter encontrado sua nota musical, o “blue”, o Dó bemolado que, segundo ela tem a cor azul, o que muito poucos podem ver. Ivone já ganhou prêmio como o do Ídolo Blue Note 88, troféu conferido pelo bar Blue Jazz, mas seu maior prêmio é o carinho e a admiração de todos os músicos pela pessoa que é.

Numa noite você entra no Take Five, com ou sem sua bebida, qualquer coisa se faz um rateio para buscar mais, se nunca foi lá, primeiro se encanta com o pátio, depois com a decoração, com o piano, repara no castiçal do piano, nas fotos antigas da Ivone. Aos poucos os músicos vão chegando, de repente Ivone senta-se ao piano e noite começa, então cada músico pega seu instrumento: Lata velha o sax, Plauto Cruz a flauta, Peter senta na bateria, Sema começa a cantar e é tudo um perfeito encaixe, nada é ensaiado e a noite segue, num ritmo solto, cada um tocando o que quer na hora que quer. Na pausa da música Ivone abre espaço para outros artistas, então entra um poeta, um bailarino e encanta quem lá está assistindo esse espetáculo único. De repente no piano alguém toca o hino e todos vibram de emoção por comungarem com ela e com tantos músico a alegria da existência de um espaço que funciona, sem fins lucrativos, há trinta anos na base do amor pela arte. Através da comunhão única do respeito desses artistas.

Ode à Ivone e a todos os músicos que fizeram desse lugar um verdadeiro templo do Jazz.

Obrigada Ivone por me permitir contar essa incrível história… que dobrem os anos do Take Five!

PS: Neste ano o Take Five completou 31 aninhos!!!

Trecho da tese de doutorado “Poetas do campo literário paralelo: duas décadas, duas cidades 1980 e 1990 Porto Alegre e Curitiba” de Maria Conceição Nunes Dornelles (Conça Dornelles)

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